Quarta, 01 Dezembro 2021
O património comum
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O Atlántico a bañar os sons da nosa fala …
Cantos na maré ( Uxía )

 

          

Os meninos que participavam nas primeiras edições de Ponte…nas ondas! admiravam-se de que, de qualquer das margens do Minho, pudesse surgir a mesma solução para uma adivinha ou a mesma conclusão para uma lenda.

Essa descoberta tem funcionado, de forma recorrente, ao longo destes 15 anos de existência em que, gradualmente, se têm descoberto semelhanças no território, nos cantares, nas danças, nas mezinhas, nas festas, enfim, no Património Imaterial comum à Galiza, a Portugal e que, felizmente, partilhamos com povos doutros pontos do mundo, por onde, ao longo dos séculos, fomos passando e deixando pegadas.

Agora, que Ponte…nas ondas! já comemora 15 anos de actividades, parece oportuno tentar leva-los – aos estudantes e a todas as pessoas interessadas – a descobrir, de forma agradável, informal, despretenciosa e pela mão de grandes artistas, um dos pontos de origem deste património comum e que é, simultaneamente, um dos momentos mais altos da criatividade deste povo que, neste canto noroeste da Península Ibérica, soube criar uma lírica tão própria e de tal riqueza que passados 8 ou 9 séculos ainda é susceptível de nos encantar.

É por isso que Ponte…nas ondas! tem o prazer de oferecer, nesta data tão especial, um trabalho com o património cultural comum galego-português que assenta em duas vertentes: a literária e a musical.
CORES DO ATLÂNTICO é uma obra que une, na mesma proposta artística, três continentes que partilham um mesmo património: a lírica medieval das cantigas de amigo. Um tesouro que se procura transmitir, no século XXI, através do sistema educativo e da novas tecnologias e do qual milhares de pessoas, por todo o mundo, continuam a aproximar-se com interesse.

Trata-se de unir com uns e de partilhar, com outros, o orgulho de termos herdado uma tradição oral única e que continua a ser referência obrigatória para todos aqueles que por uma ou outra razão se interessam pela nossa língua e pela nossa cultura.

Ponte…nas ondas! tem reivindicado o reconhecimento do património cultural galego-português como uma marca de identidade que galegos e portugueses partilhamos desde a origem e que, devido a fenómenos de colonização ou migratórios, também faz parte da identidade de todos os países de língua portuguesa.

A valorização do património imaterial galego-português implica um contexto cultural no qual se desenvolveu uma identidade que tem a sua manifestação basilar na língua comum. Um património comum que vindo da bruma dos tempos se manteve inalterável para além das divisões políticas e que ainda hoje conserva manifestações de uma unidade formal e de uma riqueza de expressões que estendem por todo o território da antiga Gallaecia e que, como dissemos, daqui irradiaram para os mais distantes pontos do globo.

O Norte de Portugal e a Galiza caracterizam-se por compartir um território com determinadas condicionantes ecológicas no qual convivem expressões socioculturais semelhantes que conformam um território culturalmente muito próximo e muito característico. A geografia e a ecologia do território têm condicionado os seus habitantes não só nas formas de interpretação do seu universo simbólico mas obrigaram-nos, também, a adoptar particulares estratégias produtivas.

A relação especial com o território impregnou as vivências das comunidades e a apropriação do mesmo, por parte destas, constitui uma das características mais identificadoras deste património cultural.

A lírica medieval galego-portuguesa, baseada na tradição oral – o meio em que, na Idade Média, a cultura se transmitia – constitui uma manifestação que, com novas formas, ainda se mantém viva no território de origem e aí apresenta expressões de excelência. Esse património tem sido o motor dinamizador da actividade de Ponte…nas ondas! junto das camadas mais jovens da população desta Euro-região. Em todas as actividades desta Associação é patente a preocupação em divulgar, proteger, transmitir e valorizar um património único, de que todos devemos envaidecer-nos e que, continuamos a acreditar, é merecedor do mais alto reconhecimento internacional.

É porque entendemos que a lírica galego-portuguesa é o primeiro “monumento” universal deste património comum, que sentimos primeiro o desejo e depois o orgulho de poder contribuir para a difusão e divulgação de algumas das composições que constituem o corpus que chegou até nós desta manifestação tão original, tão rica e tão autentica daquilo que fomos e que, em muitos aspectos, ainda continuamos a ser.

É neste contexto que surge CORES DO ATLÁNTICO, que é bem a demonstração pratica dos ideais que perseguimos porque: aborda uma matéria que é, ao mesmo tempo, origem e alto expoente dum património oral comum que, vindo desde o século XII chega aos nossos dias; une os detentores originários deste património e vários dos povos que com eles o partilham e resulta duma conjugação de vontades de pessoas que, dispersas pelo mundo, sentem o mesmo prazer e o mesmo gosto em partilhar este aspecto do seu património. Essas vontades foram, essencialmente, as de Socorro Lira, a partir do Brasil, a de Ria Lemaire, a partir de Poitiers e a de Ponte…nas ondas! a partir da Gallaecia.
Nas redes deste património, que se estende pelo Atlântico estão, também, as vontades e as vozes de Margareth Menezes, de Cida Moreira, de Caianas de Crioulos do Brasil, de Eneida Marta da Guiné-Bissau, de Teresa Paiva e de João Afonso de Portugal e de Uxía e Leilía da Galiza.

São os olhos do Brasil que fazem a leitura e a interpretação musical destas cantigas de amigo. É a música brasileira que recria uma expressão do nosso /seu património cultural comum e fá-lo recorrendo a toda riqueza e variedade rítmica e expressiva da voz de Socorro Lira que as interpreta e as partilha com outras pronúncias e outras sonoridades.

O estudo sobre a interpretação do contexto sociocultural em que surgiram as velhas cantigas, que no território eram interpretadas pelas mulheres, pertence a uma erudita e prestigiada professora, Ria Lemaire, especialista em literaturas de transmissão oral que, com o seu rigor e a sua sensibilidade, procura as raízes mais profundas das composições que conhecemos sob a designação de cantigas de amigo galego-portuguesas.  

CORES DO ATLÁNTICO é também uma proposta plástica da autoria de dois novos criadores: Anderson Augusto, de S. Paulo, que representa a mulher que canta e cria as cantigas na margem do Atlântico. Quique Bordell, de Lugo, dá-nos a sua leitura de cada uma das composições, através de magníficas ilustrações que transmitem toda a modernidade do século XXI, às cantigas de amigo.

A aproximação ao, e entre, o mundo da lusofonia que partilha elementos identitários desta cultura originaria é, não só possível mas até mesmo necessário.
As ondas do Atlântico levam as vozes e os desejos daqueles que partilhamos uma mesma raiz.

A todas as pessoas que constroem pontes sobre as ondas...

Ponte…nas ondas! 2010
 
Com o financiamento de:
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